DesonestidadeVem de longe o interesse de Dan Ariely sobre roubos, trapaças e a desonestidade em geral. Do original Previsivelmente Irracional (Campus, 2008), passando pelo correto Positivamente Irracional (Campus, 2010), até seu mais recente lançamento, A Mais Pura Verdade Sobre a Desonestidade (Campus, 2012), o autor sempre buscou entender melhor as forças ocultas que nos levam aos caminhos tortos.

Em seu primeiro livro, Ariely já publicara algumas descobertas interessantes sobre a desonestidade. Seus estudos demonstraram que, em condições experimentais, a possibilidade de ser pego em flagrante não reduz a predisposição ao roubo. Ele descobriu, ademais, que quanto mais distante do dinheiro vivo, mais o larápio rouba1.

No segundo título, Ariely concluiu que admitimos certas trapaças como forma de vingança contra alguém que nos tenha ofendido. A falcatrua, neste caso, não só sereia perdoável, como justa também2.

Em sua obra mais recente, Dan Ariely volta à questão que ele já havia deixado escapar na entrevista que me concedeu no ano passado: por que as pessoas não trapaceiam o tempo todo? E por que trapaceia só um pouco?

Sua pergunta, que até soa estranha, faz enorme sentido quando consideramos o conceito de SMORC (Simple Model of Rational Crime, ou Modelo Simples de Crime Racional), desenvolvido pelo economista Gary Becker, professor da Universidade de Chicago – e prêmio Nobel em 1992.

Segundo Becker, para decidir pela trapaça a pessoa leva em conta três fatores: o valor da trapaça em si (ou do produto do roubo), a possibilidade de ser pego e o impacto da consequente punição. Se este cálculo – semelhante ao conceito de maximização da utilidade da Economia Tradicional – for positivo, a pessoa decide roubar.

A ideia é interessante e até válida para muitas situações. Mas falha ao não considerar os conflitos morais envolvidos neste tipo de decisão. Se fosse tão simples assim, por que você não rouba o celular do seu amigo quando ele vai ao banheiro, ou a bolsa da sua colega de trabalho quando ela está almoçando? Ou ainda, por que não sonegar todo o seu Imposto de Renda, em vez de apenas uma parte dele?

O LADRÃO NO ESPELHO – A solução, sugere Ariely, é que todos nós temos uma imagem positiva de nós mesmos – e assim gostaríamos que ela fosse mantida. Desta forma, ao mesmo tempo em que cometemos alguma infração, independentemente do seu tamanho, estamos também inventando alguma desculpa que justifique nossa falha.

O limite da nossa desonestidade reside, então, em quanto achamos aceitável roubar e, ao mesmo tempo, manter a autoavaliação positiva. Olhando-se no espelho, o trapaceiro pinta de cor-de-rosa o seu lado negro. Nas palavras do autor, “de um lado queremos nos beneficiar da trapaça (motivação racional), enquanto que do outro queremos permanecer nos enxergando como seres humanos maravilhosos (motivação psicológica)

O LADRÃO CRIATIVO – Desta contradição, aliás, vem uma das mais curiosas revelações de Ariely: pessoas mais criativas tendem a roubar mais. O motivo é a facilidade com que elas inventam histórias para justificar – para si mesmas – as razões por trás de seus roubos.

A criatividade, no entanto, não deve ser confundida com inteligência já que, em nenhum dos estudos realizados, encontrou-se qualquer correlação entre capacidade intelectual e níveis de desonestidade.

O LADRÃO COLETIVO – Mas qual seria o comportamento do gatuno, quando cercado (e cercando) de seus semelhantes? Nos experimentos realizados, Ariely percebeu que assim que eram emparelhadas, as pessoas não trapaceavam, como que temendo a censura ou represália por parte dos colegas. Mas no momento em que os voluntários começavam a conviver um pouco mais, perdiam suas inibições e voltavam à gatunagem, como de praxe.

Outra interessante constatação foi perceber a natureza robin hoodiana de todos nós: altos níveis de trapaça foram observados quando o produto do roubo era dividido ou totalmente entregue a um parceiro – que não necessariamente estava roubando também. Uma das explicações possíveis é que o ladrão racionalizava mais facilmente sua atitude (batizada por Ariely de trapaça altruística) por não ficar com o produto da trapaça e, assim, terceirizava também a culpa.

O LADRÃO MODELO – Exemplos de comportamento tem uma influência implacável tanto na desonestidade quanto na honestidade. Ao realizar seus experimentos numa universidade americana, o autor infiltrava um ator no grupo, que trapaceava da forma mais visível possível. O esperado resultado era um nível exageradamente alto de trapaças no grupo. Numa outra variação do estudo, entretanto, o descarado ladrão vestia uma camiseta da universidade rival. Neste caso, eram observados os mais altos índices de honestidade.

Estes resultados parecem apontar para um a propagação contagiosa da trapaça, sugerindo que ela pode se espalhar como um vírus. Tal hipótese parece reforçar-se com o fato de que, normalmente, a desonestidade começa de forma tímida, restrita, limitada. Mas conforme seu perpetrador vai escapando incólume de suas pequenas faltas, discretas subtrações, imperceptíveis desvios, seus feitos começam a tomar volume, ganhar ousadia e aumentar os estragos.

Neste ponto, Dan Ariely é um defensor da Teoria das Janelas Quebradas3, segundo a qual todos os desvios de conduta devem ser punidos, por menores que sejam, sob pena de a impunidade testemunhar uma paulatina escalada na gravidade dos delitos.

O LADRÃO CONSCIENTE – A principal conclusão de Ariely é que embora a maioria das nossas tentativas de coibir roubos e trapaças opere com a fiscalização e a punição das trapaças, estes fatores pouco influem quando da decisão por realizar ou não a infração.

Em todas as variações de seus estudos, as vacinas de honestidade que mais funcionaram foram a fiscalização de parceiros desconhecidos (daí a importância de grupos de auditores fazerem rodízio entre si); a constante repetição de conceitos morais (ler ou citar códigos de ética ou mesmo Os Dez Mandamentos funcionaram surpreendentemente bem) e compromissos formais com a observância de padrões éticos bem estabelecidos4.

De outra forma, não resta mesmo muita esperança, porque somos todos uns ladrõezinhos bem sem-vergonha. Eu, você e o Dan Ariely.

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1. Leia mais em Seu ladrãozinho barato!

2. Veja em The Upside of Irrationality – Motivação e Vingança.

3. Criada por James Wilson e George Kelling, a teoria serviu de base para o política de tolerância zero adotada pelo então Procurador Geral de Nova Iorque Rudolph Giuliani, no início da década de 1980.

4. Suas evidências sugerem, inclusive, que aquela célebre frase “Declaro que todas as informações aqui contidas são verdadeiras etc.” deve vir no início dos documentos – e não no final.