AntifrágilDesde A Lógica do Cisne Negro (Best Books, 2008), o libanês Nassim Nicholas Taleb vem trazendo visões bastante heterodoxas sobre Incerteza e Risco. Para ele, a forma como lidamos com ambos é equivocada e perigosa, principalmente no modo como o mercado financeiro se estrutura.

Antifrágil: Coisas Que Se Beneficiam Com o Caos (Best Business, 2014) agrega um poderoso elemento a esta discussão: a antifragilidade.

Grosso modo, funciona assim: quando pensamos no contrário de frágil, logo nos lembramos de robustoresistente e, com o mais recente modismo, de resiliente. Mas se considerarmos que o frágil é aquilo que piora (quebra, rompe ou deforma) quando submetido à pressão de algum agente externo, então o seu oposto deveria ser algo que melhorasse quando enfrentasse situação semelhante.

Este não é o caso, exatamente, das três definições sugeridas acima. Nem o robusto, tampouco o resistente ou o resiliente melhoram quando experimentam algum tipo de estresse. Se eles não se rompem, ao menos até determinado limite, também não se aprimoram.

É aí que entra o conceito de antifragilidade: coisas que melhoram com a desordem, como diz o próprio subtítulo do livro. Pode não parecer, mas a diferença é gigantesca!

Vejamos o corpo humano, por exemplo: nosso sistema imunológico é antifrágil porque, quando atacado, ele não só resiste como também fica melhor. Fôssemos robustos, resistiríamos apenas até um certo nível de agressão, além do qual morreríamos.

Antes que você pense que isto é apenas uma releitura da célebre frase de Nietzsche, Taleb antecipa-se: “o que não me mata não me fortalece, mas mata os menos aptos e torna a população sobrevivente mais forte como um todo”. Isto ocorre porque, em determinados sistemas, a fragilidade das partes é necessária na construção da antifragilidade do todo. Desta forma, uma célula morre para que um organismo sobreviva, assim como uma geração perece para que a espécie como um todo torne-se mais forte.

O mesmo acontece no mundo corporativo: a aviação comercial, por exemplo, é antifrágil e melhora a cada acidente, porque quando um avião cai, as falhas são analisadas e a segurança é reforçada. No mercado financeiro, no entanto, a dinâmica é diferente: se um banco quebra ele afeta os demais. Os efeitos são sistêmicos e cumulativos.

Embora pela descrição pareça ser mais seguro e/ou vantajoso ser antifrágil do que ser robusto, algumas entidades insistem em fazer o caminho inverso, removendo – ou, ao menos, tentando remover – a aleatoriedade do ambiente. Pois se são as agressões externas que dão mais consistência ao antifrágil, o pior que se pode fazer é proteger-lhe de tais ataques. É por isso, também, que as empresas se enfraquecem durante longos períodos de estabilidade, pois as pequenas vulnerabilidades se acumulam sob a superfície. Então, adiar uma crise não é uma boa ideia.

Sem a hostilidade de um ambiente aleatório, o antifrágil não tem como aprender, reforçar-se, melhorar, evoluir. E nada pior para evitar o acaso do que as tentativas de previsões. Como sabemos, previsões são ótimas. Exceto quando não são. Até porque nosso histórico de acertos em prever eventos raros e significativos em política e economia não está próximo de zero. Ele é zero.

Vejamos um exemplo de como se faz a prevenção de grandes desastres na construção uma usina nuclear. Pensa-se no pior cenário possível, como um terremoto de intensidade 7, o mais grave já ocorrido na região. A instalação é construída, então, para resistir a esta magnitude de desastre.

Ocorre, no entanto, que antes deste terremoto de escala 7, houve um outro, menos intenso (de intensidade 6, suponha), mas que era o mais forte até então. Se antes do terremoto de escala 7 tivessem construído uma usina para resistir ao mais forte terremoto até o momento (o 6), ele teria desmoronado com o de escala 7. E, assim, o erro é repetido sistematicamente.

Já que é impossível alcançar a robustez perfeita, precisamos construir sistemas que se regenerem através da ação de eventos aleatórios, choques imprevisíveis, estressores e volatilidade. Mas jamais proteger o sistema dos ataques previsíveis, ou ele não conseguirá se reforçar para defender-se dos imprevisíveis.  Evitar os pequenos erros torna os grandes ainda mais perigosos.

O contrário de frágil vai, então, muito além do robusto, do resistente e até mesmo do resiliente, este novo modismo gerencial. Se o frágil piora quando submetido a algum estresse, o seu oposto deveria melhorar quando em condições semelhantes – o que não é verdade para nenhum dos antônimos aqui sugeridos.

Para preencher esta lacuna, Nassim Taleb sugere o termo antifrágil, que representa aquilo que se aperfeiçoa quando enfrenta situações adversas. A aleatoriedade – que é o que permite a ocorrência de situações adversas – é, portanto, uma condição necessária para que sistemas e organismos cultivem sua antifragilidade e possam, assim, se fortalecer ante os imprevistos.

O conceito tem algumas derivações e aplicações bem interessantes:

Uma delas é a ideia de não-linearidade. Em sistemas lineares, a cada aumento no estímulo, temos um aumento proporcional na resposta, sempre obedecendo a um mesmo padrão estímulo-resposta.

Imagine que você esteja dirigindo por uma avenida com mais mil outros carros e demore vinte minutos para ir de uma ponta a outra. Quando entram mais dez carros na pista (+1%), a velocidade cai e demora-se, agora, um minuto a mais para chegar ao outro lado. Mais dez carros, mais um minuto e assim por diante, em uma relação linear.

Na prática, no entanto, sabemos que não é bem este o caso do trânsito, pois haverá um momento em que a entrada de mais um único carro fará com que a via engarrafe, dobrando ou triplicando o tempo gasto. Ou mesmo travando-a completamente. Em outras palavras: cada carro a mais aumenta o tempo de viagem mais do que o anterior.

Esta assimetria na resposta a um estímulo é, segundo Taleb, a principal pista para se identificar a antifragilidade. Quando a ocorrência de eventos aleatórios (a entrada de novos carros na avenida) tem a possibilidade de trazer benefícios muito pequenos (mais mobilidade), mas também de causar transtornos desproporcionais (trânsito), dizemos que o sistema é frágil.

No mercado financeiro, por exemplo, há investimentos nos quais a aleatoriedade pode proporcionar ganhos constantes, mas pequenos, intercalados por perdas esparsas, porém gigantescas. São situações de grande exposição, ou de fragilidade. O ideal, continua o autor, é buscar alternativas nas quais se tenha perdas pequenas e constantes, intermeadas por ganhos raros, mas colossais.

Ser antifrágil, isto é, ter mais a ganhar do que a perder com a aleatoriedade tem a ver, também, com as alternativas de que você dispõe em cada situação. Quando você tem muitas opções com desfecho positivo – ou as opções com desfecho positivo têm um retorno descomunal em relação às com desfecho negativo -, então nem é preciso saber escolher (repare que no gráfico abaixo há um desequilíbrio entre perdas e ganhos). A quantidade e a qualidade das opções disponíveis determinam o seu grau de antifragilidade. É a opcionalidade que, segundo Taleb, proporciona a oportunidade da tentativa e erro (leia um pouco mais sobre tentativa e erro na Entrevista com Tim Harford).

Antifrágil_DiagramaMas se, ao contrário, suas opções forem restritas, aí você está frágil e, dependendo da agressão que sofrer do ambiente, poderá quebrar.

Além de buscar a antifragilidade, outra forma de precaver-se da imprevisibilidade e da não-linearidade do conjunto estímulo-resposta é adotar a redundância. Embora muitos gestores considerem-na um desperdício, na medida em que implica em custo de oportunidade, Taleb enxerga a redundância como um recurso oportunista.

Imagine que você – ou a sua empresa – tenha uma reserva de capital para ser usado em uma emergência. Mas em vez de o acaso trazer-lhe um revés, aparece uma oportunidade – como alguém precisando vender um carro ou imóvel. Você pode utilizar sua redundância para obter uma vantagem adicional e imprevista.

Outro conceito interessante apresentado no livro é o da via negativa. Segundo o autor, aquilo que você sabe ser falso é mais valioso do que o que julga ser verdadeiro, na medida em que algo que você comprovou ser falso jamais poderá tornar-se verdadeiro novamente, enquanto que o que julga ser verdadeiro pode, um dia, vir a ser comprovadamente falso.

Esta epistemologia negativa – de compor o conhecimento através do falso, em vez do verdadeiro – apresenta maior robustez, uma vez que um milhão de observações não podem confirmar uma teoria, ao passo que uma simples observação pode refutá-la por completo.

Tal afirmação é ilustrada pela história do peru: todo dia o açougueiro alimenta a ave, fazendo com que cada vez mais ela acredite que ele é seu amigo. Nada indica o contrário, até a véspera de Natal. É aí, por exemplo, que confundimos ausência de evidência (nada sugere que o açougueiro não seja amigo do peru) com evidência de ausência (nada prova que o açougueiro seja amigo do peru).

Ou, dito de outra forma: quando nada de errado acontece não significa que estamos seguros. Significa, apenas, que ainda não aconteceu nada errado. São duas afirmações bem diferentes.

A noite de Natal representa, para o peru, o cisne negro em sua vida, isto é: um evento raro, porém possível e fácil de explicar retrospectivamente e que muda completamente o curso dos acontecimentos. Para Taleb, o importante é prevenir-se deste tipo de acontecimento e das suas consequências devastadoras.

O terceiro conceito inovador e impactante desenvolvido em Antifragile diz respeito ao tipo de conhecimento mais valioso para nossas tomadas de decisão. Taleb ilustra a ideia com a história de um conhecido seu que era o mais bem sucedido trader no mercado de madeira verde (green lumber) que conheceu. Um dia, conversando com este profissional, ele percebeu que seu interlocutor acreditava que madeira verde era uma tábua pintada de verde quando, na verdade, trata-se da madeira in natura, isto é, que ainda não foi tratada.

O corretor conseguia, simplesmente, ler o mercado em que atuava de acordo com suas oscilações de preços, baseado em variações de oferta e demanda, sem qualquer sofisticação adicional. O sucesso deste profissional baseava-se, quase que exclusivamente, na prática adquirida ao longo de sua carreira.

Completamente avesso ao conhecimento puramente acadêmico, o autor entende que os estudiosos acabam contaminando os mercados, no momento em que buscam explicações teóricas para movimentos naturais. Ao aderir às teorias propostas, por sua vez, os negociantes acabam negligenciando fatores críticos que os acadêmicos não conseguem explicar ou prever.

Um destes fatores, continua, é o risco associado à maioria das operações. Muita gente acostumou-se, por exemplo, a encontrar benefícios na economia de escala, graças à teoria desenvolvida pelos acadêmicos em torno desta ideia. Para Taleb, no entanto, uma análise de benefícios que não incorpora as probabilidades de fracasso está sempre incompleta. E os estudos sobre economia de escala desconsideram o fato de que estruturas grandes demais também são frágeis demais, pelas dificuldades que o tamanho impõe às mudanças em tempos de crise.

Empresas grandes demais aumentam, também, sua fragilidade, na medida em que se expõem mais frequentemente aos cisnes negros, transformando as consequências dos seus erros em verdadeiras catástrofes.

Resumindo, Antifrágil é um livro que não pode ser resumido. Nesta pequena amostra, vimos uma série de conceitos intrigantes e desafiadores, mas tenha a certeza de que um número ainda maior ficou de fora. A ideia central é poderosa e arrebatadora, por sua simplicidade e sua força, por sua clareza e sua abrangência, por sua originalidade e engenhosidade e, por último, mas nem por isso menos importante, por sua facilidade de assimilação e utilização em uma nova maneira de enxergar o mundo.