Lies, Damn Lies and ScienceA cada dia as decisões que precisamos tomar são mais influenciadas por questões de cunho científico.

Aquecimento global, alimentos transgênicos ou orgânicos, pré-sal, células-tronco, LCD ou LED, estatinas, substâncias cancerígenas, doença da vaca louca, gripe aviária ou suína – tudo envolve algum grau de informação especializada.

Jamais precisamos tanto daquilo que outrora aprendemos no colégio. E jamais estivemos tão distantes daquele precioso conhecimento.

Em Lies, Damned Lies, and Science: How to Sort through the Noise around Global Warming, the Latest Health Claims, and Other Scientific Controversies(FT Press Science, 2009), Sherry Seethaler faz o papel de guia neste confuso universo de meias-verdades, mentiras inteiras, interesses escusos, manipulação da opinião pública, preguiça intelectual e ignorância pura e simples.

Mas em vez de dissecar cada um dos temas, Seethaler mostra o caminho das pedras, isto é, aponta os principais detalhes que devemos prestar atenção para entender melhor uma controvérsia e, se preciso, tomar uma decisão mais consciente.

CIÊNCIA E PROGRESSO

Boa parte da confusão resulta da visão incorreta de que a Ciência é estável, imutável, estática. Antes disso, ela é fluida, dinâmica e progride.

Como Thomas Kuhn bem observou em A Estrutura das Revoluções Científicas (um clássico de 1962), ela evolui a partir da criação de paradigmas nos diversos campos que a compõe e, de tempos em tempos, novas ideias surgem para que estes mesmos paradigmas sejam quebrados e substituídos.

Os conflitos entre diferentes visões e concepções são, portanto, necessários para que conhecimento avance. Algo bem distante das rivalidades alimentadas pela mídia e público leigo, em busca de sensacionalismo e reducionismo inexistentes.

PATROCÍNIO, PAIXÃO E PÂNICO

O primeiro passo para entender o que há por trás de uma notícia é conhecer suas origens e, por extensão, seus patrocinadores. Pesquisas de ponta requerem enormes investimentos e, por isso, pressupõem algum tipo de contrapartida. Identificar quem ganha ou perde com cada nova teoria dá boas pistas sobre sua legitimidade.

Além disso, a Ciência está inserida num contexto social, sofrendo suas pressões ao mesmo tempo em que exerce sua influência. Os tipos de câncer mais pesquisados não são os que mais matam, mas os que têm ONGs e Associações mais representativas. As doenças mais investigadas não são as mais letais, mas aquelas cujas drogas são mais caras, atingem uma população que pode pagar por elas e demandam tratamentos de longo prazo.

Pesquisas patrocinadas por governos, por exemplo, tendem a pintar quadros sombrios quando o assunto é saúde, de modo a assegurar o posterior fluxo de verbas. Apesar de isto provocar pânico desnecessário – como o temor de uma pandemia de gripe – representa uma ferramenta muito utilizada pela mídia e aproveitada pela comunidade científica: o medo.

O mesmo medo da Guerra Fria que impulsionou a indústria bélica na segunda metade do século passado, libera verbas extras sempre que uma crise explode na área de saúde. Quanto maior o risco, quanto mais feia a ameaça, mais apoio da opinião pública receberá. E mais jornais serão vendidos. Para espalhar mais pânico. Para vender mais jornais.

DICOTOMIAS E TRADEOFFS

Outra tendência incompreensível no noticiário é apresentar determinados temas como se fossem dicotomias, isto é, opções mutuamente excludentes dentre as quais é preciso escolher entre uma ou outra.

A maioria das decisões envolve mais de duas alternativas – sem esquecer que manter o status quo também é uma alternativa. Apontar alimentos transgênicos como totalmente maus, banir emissões de CO2 ou sacolinhas plásticas são exemplos típicos de decisões preto no branco. A realidade apresenta, entretanto, muitas variações de cinza que a alguns não interessa que enxerguemos.

Pesar prós e contras nestas situações parece óbvio, mas identificar corretamente quais são estes prós e contras – ao menos os mais relevantes – não é. Isto porque nem sempre as relações de causa e efeito são claras. Some-se a isso o fato de que a alguns grupos não interessa que toda informação esteja disponível e temos um cenário propositalmente confuso, que facilmente induz ao erro.

ENGANOS E ENGANOS

Muitos dos nossos enganos podem ser atribuídos a notícias mal divulgadas, combinadas com falta de senso crítico ao analisá-las. Parte dos erros dos jornalistas é por desconhecimento puro e simples do assunto, parte é proposital, parte por apenas repetir o que lê, parte é da fonte.

Notícias podem destacar o lado negativo de uma história (“devedores inadimplentes somam 15%”) ou sua face positiva (“85% dos devedores pagam suas contas em dia”), dependendo do impacto que se queira causar. Por isso é importante ver sempre o tema sob outro ângulo – o que os especialistas chamam de framing – ou perspectiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, a autora faz um checklist para nos ajudar a navegar pelo revolto mar de informações em que boiamos. Resumidamente:

– Entenda como a Ciência avança e por que os cientistas discordam de vez em quando;
– Identifique quem são os interessados em cada assunto e quais as suas posições;
– Conheça os prós e contras de cada decisão;
– Coloque cada alternativa dentro do seu próprio contexto;
– Diferencie causas e consequências;
– Veja até que ponto conclusões tiradas sob determinadas condições podem ser aplicadas num sentido mais amplo; e
– Entenda as relações entre Política e Ciência, bem como suas influências mútuas.

Seethaler faz parte de uma nova geração de acadêmicos que tenta reaproximar a sociedade de suas fontes de produção e reprodução de conhecimento. Uma separação fortemente alimentada durante o governo Bush, com a velada (embora óbvia) intenção de afastar a população de importantes decisões.

Junto com seus pares, a autora lembra que Ciências não é coisa de nerd, não saber matemática não é glamoroso, pois enquanto isso alguém está tomando as decisões por você.