O Cérebro do FuturoO Cérebro do Futuro (Campus, 2007) foi escrito há sete anos, mas seu conteúdo parece atual como nunca.

Desde o subtítulo Daniel Pink deixa clara sua crença, de que o futuro será dominado por aqueles que melhor conseguirem explorar, de forma sistemática, as habilidades comumente associadas ao hemisfério direito do cérebro*.

Pink justifica sua previsão identificando três importantes e onipresentes elementos da vida contemporânea:

ABUNDÂNCIA: temos tudo em maiores quantidade e qualidade do que nossos pais. Nossos filhos têm coisas com as quais sonhamos, mesmo depois de adultos. Dezenas de canais de TV, centenas de sabores de sorvetes, milhares de títulos de jornais e revistas. Como escolher um – ou como fazer para que escolham o que você vende?

ÁSIA: trabalhadores da Índia e da China estão fazendo o trabalho de consultores, programadores, advogados e até médicos do primeiro mundo. Após a terceirização da manufatura, quando as fábricas foram exportadas para a Ásia, chegou a vez de a emigração laboral levar mais empregos embora.

AUTOMAÇÃO: o que o Rajiv ou o Tsang já não estiverem fazendo na Ásia, provavelmente um computador fará em breve – mais rápido e mais barato.

Desde então as coisas só pioraram: o que antes era restrito à Índia devido ao idioma, tem agora a companhia de uma China cada vez mais versada em Inglês. Hoje há softwares que escrevem softwares. Carros de luxo tornaram-se commodities. Inovação tornou-se commodity. Como alguém se diferencia num mundo assim?

Durante muito tempo batemos palmas para mentes racionais, analíticas e lineares, enquanto outras capacidades eram negligenciadas, marginalizadas até. Nosso modelo acadêmico, baseado em respostas precisas, restritas aos temos exatos e devidamente padronizadas esqueceu-se de cultivar a criatividade, a emoção e um olhar mais abrangente.

Para Pink, a solução deste desafio está em seis habilidades que, durante muito tempo, ficaram relegadas a um segundo plano.

DESIGN | DESIGN: repare em quantos modelos de escovas de dentes existem na farmácia, quantas canetas esferográficas há numa papelaria, quantas Havaianas são exibidas numa loja. Há muito tempo produtos transcendem sua utilidade básica. Hoje eles refletem estilos de vida, preocupações ambientais, convicções morais. Boa parte disso é transmitida através do design do produto além, é claro, de boa parte da sua funcionalidade.

HISTÓRIA | STORY: cada dia lidamos com um volume crescente de informações. E quanto mais as informações se disseminam, menor valor intrínseco elas guardam. Como você guarda algum conteúdo, ou melhor, como você faz com que alguém guarde algum conteúdo? A resposta está no contexto, na narrativa que amealha estes fatos, no sentido que eles trazem. Nas palavras do autor, “[A] essência da persuasão, comunicação e entendimento pessoal transformou-se na habilidade de criar uma narrativa atraente”.

SINFONIA | SYMPHONY: não são apenas bens materiais que estão em abundância; ideias também há aos montes. Como você interage com elas? Como você as combina? A analogia é autoexplicativa, na medida em que encontrar a harmonia entre temas aparentemente desconexos requer uma habilidade ímpar de enxergar o todo, de perceber interações, vislumbrar conexões. Tal capacidade tem na multidisciplinaridade sua principal aliada.

EMPATIA | EMPATHY: ver o mundo através de outros olhos permite entender não só os sentimentos alheios, mas também seus anseios e necessidades. O profissional de hoje precisa desenvolver seu lado antropológico em seu sentido mais amplo, abrindo sua percepção para captar o mundo ao seu redor.

DIVERSÃO | PLAY: poucas pessoas atingem um sucesso consistente se não se divertirem com o que fazem. Diversas pesquisas já mostraram que líderes competentes cultivam um afinado senso de humor, que faz do ambiente de trabalho relaxado o lugar ideal para que boas ideias surjam e se desenvolvam. Humor envolve ingenuidade e elementos de surpresa, ambos imprescindíveis para inovar.

SIGNIFICADO | MEANING: quando a maioria das nossas necessidades físicas estão satisfeitas – em virtude da abundância – as atenções voltam-se para as preocupações mais abstratas. O bem-estar coletivo, a harmonia com o meio-ambiente e o fim do sofrimento alheio tornam-se igualmente importante para nos inspirar e seguirmos adiante.

Longe de ser uma receita de bolo – até porque não é muito prático – A Whole New Mind faz um alerta para uma drástica mudança de comportamento, que afeta a vida profissional de quase todo mundo.

Numa era marcada pelos 3A’s (Abundância, Ásia e Automação), a sobrevivência requer habilidades que as escolas não ensinam. Exige um repertório mais amplo e, principalmente, a capacidade de reembalar este repertório de um modo que não estamos mais acostumados a fazer. E para presente, de preferência.

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* Tal como ele havia mencionado na entrevista que me concedeu no final do ano passado.