o iconoclasta

O Iconoclasta é um daqueles livros que falam como pessoas diferenciadas conseguem realizar tantas coisas durante a vida – e, em alguns casos, até após a morte. Em vez de cair na velha e desgastada fórmula que pretende revelar o segredo do sucesso, no entanto, o neurocientista Gregory Berns analisa algumas características fundamentais dos iconoclastas, aquelas pessoas que fazem coisas que os outros dizem que não podem ser feitas.

Talvez um dos motivos que diferencie O Iconoclasta de outros “manuais dos sensacionais” é que não necessariamente as personalidades biografadas experimentam sucesso em vida e, por isso, não servem como receita garantida para fama e fortuna. Van Gogh e Tesla que o digam.

O que distancia Berns das prateleiras de autoajuda é que ele apoia suas teorias em recentes descobertas da Ciência, como as novas tecnologias de neuroimagem que aos poucos vão nos revelando os segredos do cérebro, esse ilustre desconhecido.

Para o autor, o cérebro de um iconoclasta funciona de forma diferente dos demais em três aspectos básicos:

A PERCEPÇÃO

Para trabalhar de forma eficiente, pois a quantidade de energia do corpo humano é limitada, o cérebro usa alguns atalhos. Ao deparar-se com o desafio de interpretar os estímulos originados nos cinco sentidos, ele busca maneiras de diminuir o esforço em identificá-los. Isto é conseguido através da associação desse estímulo com algo que já vimos, ouvimos ou cheiramos antes, enfim, com alguma experiência anterior.

Como todos temos várias experiências anteriores, o cérebro precisará decidir com qual ele irá associar aquilo que está percebendo no momento. Trata-se, assim, de um problema de interpretação. Considerando que tudo pode ter múltiplas interpretações, aquela que o cérebro escolhe representa, então, sua melhor opção. Essa escolha baseia-se, por sua vez, num encaixe estatístico que mostra a maior adequação de uma interpretação em relação à outra, dentro de uma das muitas categorias que ele tem armazenadas em seu vasto repositório de informações: a memória.

A percepção responde, assim, por boa parte da complexidade desse desafio, pois o modo como percebemos as coisas não é apenas um resultado do que nossos olhos e/ou ouvidos transmitem ao cérebro. Mais do que a realidade física de fótons ou ondas sonoras, a percepção é um produto do cérebro.

Se por um lado este processo permite-nos perceber e avaliar as coisas com mais rapidez e eficiência, por outro pode limitar nossas possibilidades de enxergar a realidade, no sentido mais amplo do termo. Isso ocorre pois a pessoa cujas experiências passadas foram pouco variadas, terá menos alternativas para entender e classificar aquilo que seus sentidos capturam.

A percepção é construída, portanto, através de um processo de aprendizagem que não está irrevogavelmente pregado ao cérebro. Ela é adquirida através da experiência e, sendo assim, pode ser constantemente reaprendida. Mas como órgão preguiçoso que é, o cérebro só muda se for obrigado a isso. Para tal ele precisa ser constantemente forçado a reaprender ao ser confrontado com algo novo, pois novidade equivale a aprendizado, e aprendizado significa reescrever fisicamente o cérebro.

Para reduzir os limitantes efeitos das experiências passadas em nossa percepção o ideal é bombardear o cérebro com realidades diferentes, ideias novas, conceitos inéditos. Novidades liberam os processos de percepção das amarras de antigas experiências e forçam o cérebro a improvisar julgamentos.

Essa afinidade do iconoclasta com o novo confere-lhe, assim, um enorme poder de construção e ampliação das categorias armazenadas em seu cérebro. Isso permite que um número muito maior de associações possa ser feito e mais interpretações tornem-se possíveis.

Resumidamente, a aguçada curiosidade de um iconoclasta haverá de permitir-lhe expôr-se a um número muito maior de estímulos que, por sua vez, criarão e enriquecerão seu repositório de experiências. Com esse fabuloso arcabouço teórico, prático e estético, o iconoclasta torna-se apto a questionar padrões, buscar novas realidades, propôr mudanças, destruir crenças e criar um mundo diferente do qual as pessoas acreditam.

O MEDO

Buscar coisas novas e lidar com o desconhecido representa, no entanto, sair da nossa zona de conforto e trafegar por regiões onde não temos nenhum histórico. Significa encararmos desafios para os quais não estamos preparados. Mergulhar num poço que não sabemos a profundidade. E é justamente esse tipo de comportamento que dispara os sistemas de medo no cérebro.

Ao defender uma posição estranha à maioria o iconoclasta expõe-se, no mínimo, ao fracasso. Todos temos medo de errar, de perder, de não conseguir. E, assim, muitos de nós antecipamos nosso insucesso e transformamos o medo de errar em medo de tentar – especialmente quando todos os que já tentaram não conseguiram.

Por esse motivo, muitos preferem juntar-se à multidão em vez de enfrentá-la. Alguns deixam de acreditar em suas próprias idéias para não soarem estranhos ao grupo. Outros, ainda, forçam sua percepção para adequá-las ao senso comum, por medo de parecerem diferentes.

O psicólogo Solomon Asch mostrou isso num célebre experimento na década de 1950, em que todos numa sala eram seus assistentes de pesquisa, menos um – que era o real objeto da pesquisa. O estudo consistia numa série de testes visuais, nos quais as pessoas que sabiam do experimento erravam de propósito e, por sua vez, induziam o voluntário a errar também, mesmo quando a resposta era nitidamente incorreta.

O fato é que ninguém gosta de parecer burro, mas parecer estranho soa ainda pior. Mesmo ciente do que estava vendo e discernindo entre certo e errado, a pressão social exercida pelo grupo levava o voluntário a ir contra suas próprias convicções, em favor do consenso. Mas é preciso, de fato, muita coragem para ir contra o senso comum, discordando da opinião geral.

Em diversos ambientes o medo de algum resultado negativo – ou até mesmo a euforia de um resultado positivo – pode alterar nossos sentidos. Diversos experimentos mostram alterações importantes na forma como as pessoas tomam decisões, dependendo da sua exposição a fatores de estresse, pelo modo como essas situações influi em suas percepções.

Um dos sistemas responsáveis por nossa reação ao medo é a amígdala, uma pequena estrutura do tamanho de uma amêndoa, localizada no lobo médio temporal e integrante do sistema límbico. Além de regular outras nuances emocionais, é ela que registra na memória as situações às quais reagimos amedrontadamente.

A amígdala coordena o que os cientistas chamam hoje de condicionamento ao medo. Assim como Pavlov demonstrou o reflexo condicionado do cachorrinho salivando ao ouvir a sineta anunciando a hora do almoço, algumas situações podem disparar os mecanismos do medo de forma automática (como taquicardia, respiração ofegante, boca seca etc.).

Recentes pesquisas mostram que o condicionamento ao medo pode ser adormecido, jamais completamente apagado. Se algum estímulo nos condicionou a alguma forma de medo, mesmo que nunca mais sejamos expostos a ele novamente, suas cicatrizes permanecem adormecidas em nossa memória, esperando o momento de assombrar-nos novamente.

Mas Berns aponta alternativas para essa pseudomaldição. Como não podemos evitar maus momentos para sempre (o que seria ideal), a estratégia seria enxergar episódios negativos – e que poderiam desencadear um condicionamento ao medo – sob outra perspectiva, um diferente ponto-de-vista. A constante exposição ao objeto do medo, por exemplo,  pode reduzir seu efeito. Preparar-se, ensaiar e antecipar seus efeitos também ajuda.

De qualquer forma, ao dominar o medo – em vez de ser dominado por ele – constitui um traço marcante na vida daquele que certamente passará por muitos fracassos antes de conhecer o sucesso.

AS CONEXÕES

Talvez o isolamento seja um dos principais pontos que diferencia um iconoclasta de um fora-de-série, conforme descrito por Malcolm Gladwell em Fora de Série – Outliers: Descubra Por Que Algumas Pessoas Têm Sucesso e Outras Não. É o que separa, por exemplo, o que realizaram em vida Van Gogh e Picasso. Enquanto o primeiro morreu sozinho, louco e na miséria, o segundo conseguiu viver a tempo de apreciar cada fruto do seu incalculável legado.

Durante boa parte da sua vida, Picasso esteve no centro das atenções, cultivou amizades, atraiu admiradores, colecionou amantes. Por sua rara combinação de habilidades sociais, tornou-se um elo central que compunha o tecido da alta sociedade do início do século passado.

Já Van Gogh parecia ser o oposto da figura carismática de Picasso. Relatos de seus contemporâneos descreviam-no como uma personalidade repulsiva. Até as pessoas mais próximas a ele – como Gaugin, o felizardo que ganhou sua orelha de presente – precisavam se esforçar para lhe fazer companhia.

Para obter sucesso em vida, o iconoclasta não pode esperar que o mundo venha à sua porta para ver o que ele realizou, especialmente porque serão obras desconhecidas à multidão. Pelo caminho ele encontra resistência, desconfiança e rejeição mas, para conseguir circular pelo mundo e difundir seu pensamento, o iconoclasta precisa construir uma rede de relacionamentos através de dois fundamentos básicos: familiaridade e reputação.

Familiaridade é uma propriedade que pode torná-lo conhecido mesmo quando você não é. Novas ideias – especialmente aquelas pelas quais você precisa pagar para se aproximar – afloram a desconfiança inerente às sociedades modernas. Numa cultura de confiança absolta, a evolução favoreceu os que conseguiam enganar seus semelhantes. Em culturas nas quais um misto de cooperação e desonestidade coexistem, somente a possibilidade de desonestidade confere valor à cooperação.

Criar algum tipo de empatia natural facilita, portanto, a aceitação do novo. Inexplicavelmente, há coisas das quais gostamos sem qualquer motivo aparente, simpatizamos logo de cara, como determinados ritmos de música, estilos de filmes, estereótipos do sexo oposto, configurações de cidades etc. Estar familiarizado com alguns padrões nos deixa mais receptivos a acreditar na reputação de alguém.

Para vender suas originais ideias é fundamental, então, que o iconoclasta construa uma reputação positiva que atraia as pessoas mesmo que seja para algo potencialmente amedrontador. É por isso que você segue a indicação do seu amigo que gosta de cinema para o filme do final de semana e precisou, certamente, de um apoio mais do que confiável para provar uma ostra ou um sashimi.

Metade do sucesso de Steve Jobs é atribuído à sua genialidade no design de novos produtos. A outra metade reside no seu talento em conectar-se aos early adopters que, no fim do dia, são os que realmente difundem iPods, Macs e afins pelo mundo. Iconoclastas de sucesso conseguem polinizar o ambiente ao seu redor, contagiando os futuros multiplicadores de suas ideias.

Vimos, assim, que o Iconoclasta é alguém que faz o que os outros diziam que não poderia ser feito. Alguém que vê as coisas de forma diferente e por isso alimenta sua imaginação com ração premium – Berns afirma que a imaginação nada mais é do que nossa percepção funcionando às avessas (em vez de vermos algo que forma uma imagem no cérebro, quando criamos formamos primeiro a imagem no cérebro e conseguimos visualizá-la).

Uma pessoa que acredita na sua criatividade o suficiente para lutar por ela, sem medo das reações contrárias ou da possibilidade de fracasso. Uma personalidade forte o suficiente para amealhar importantes evangelizadores para sua causa. O visionário destemido e querido, que de iconoclasta transforma-se em ícone, para depois cair ante o próximo iconoclasta. E assim por diante.