Fora de SérieGrosso modo, o que Malcolm Gladwell propõe em seu Fora-de-série é que o sucesso não é apenas uma questão de mérito pessoal, mas diversos outros fatores contribuem para que uma pessoa destaque-se em sua área de atuação e tenha desempenho superior numa determinada atividade.

A primeira teoria de Gladwell para mostrar a origem do sucesso de pessoas extraordinárias remonta às nossas origens individuais. Para o autor onde e quando nascemos e crescemos exercem grande influência no nosso desenvolvimento e em nossas chances de sermos bem-sucedidos. A cultura a que pertencemos e os legados recebidos de nossos antecessores têm, segundo ele, consequências diretas em nossos feitos, de uma forma que sequer imaginamos.

Um exemplo bastante ilustrativo disso pode ser verificado nas ligas esportivas estudantis dos países do primeiro mundo. Observando a lista dos jogadores de uma partida final da liga escolar de hóquei sobre o gelo no Canadá, um fato curioso saltou aos olhos: 14 dos 25 jogadores nasceram entre janeiro e março. São 56% em vez dos 25% esperados. Apenas 5 nasceram no segundo semestre (20% em vez de 50%). Ora, mas de que forma o mês de nascimento de uma pessoa interfere em sua performance esportiva?

Aparentemente, não muita coisa. Mas quando a criança tem seis, sete anos, quem nasceu em janeiro é onze meses mais velho do que quem nasceu em dezembro. Nessa idade, quase um ano faz uma diferença enorme – só para ficar na parte física. O que ocorre a partir daí? A criança que tinha uma pequena vantagem (força física, desenvolvimento) passa a receber treinamento técnico, tático, psicológico, preparação muscular e o que antes era um leve desequilíbrio para com seus amiguinhos, passa a ser um abismo.

Treinar um menino de sete anos num ambiente profissional, seis horas por dia, durante dez anos fará dele um atleta muito melhor do que seu colega que dedica-se ao esporte somente nos finais de semana. E por que isso aconteceu, em primeiro lugar? Simplesmente porque um nasceu em janeiro e o outro em novembro.

Mas depois desta vantagem natural e aleatória, o outlier começa a traçar seu próprio caminho, especialmente quando ele começa a se aplicar – seja em uma atividade física ou intelectual. Na década de 1990, o psicólogo K. Anders Ericsson e seus colegas realizaram, na Academia de Música de Berlim, um interessante estudo para verificar que fatores diferenciavam os gênios da música dos intérpretes mais ou menos e, especialmente, a correlação entre intensidade dos estudos e performance.

Todos os participantes haviam começado a tocar (violino, nesse caso) quase com a mesma idade (cinco anos) e praticavam uma média de duas a três horas semanais. A partir dos oito anos, contudo, começaram a surgir as diferenças: nessa idade os melhores alunos praticavam cerca de seis horas por semana. Aos doze, a média subia para oito horas e chegava, aos quatorze anos, a dezesseis. Ao completarem vinte anos de idade, esses alunos já dedicavam à música trinta horas semanais e haviam acumulado dez mil horas de prática. Ericsson e sua equipe repetiram a pesquisa com pianistas – e chegaram ao mesmo padrão.

Outro aspecto interessante quando avaliamos esse número é que dez mil horas é um bocado de tempo! Nenhuma criança consegue atingir essa marca se não contar com um colossal apoio de sua família. Em todos os aspectos de sua vida o gênio em desenvolvimento precisará de suporte emocional, financeiro e motivacional.

Analisando a biografia de ilustres bem-sucedidos, Gladwell mostra de que forma eles conseguiram completar essa extenuante jornada. Desde Bill Gates e Bill Joy (que reescreveu o UNIX e o JAVA e fundou a Sun Microsystems) até os Beatles (que na década de 1960 faziam shows de 12 horas, sete dias por semana em Hamburgo, na Alemanha).

Fatores ambientais também representam boa parte das oportunidades a que esses ícones tiveram acesso. As histórias dos gênios da computação citados acima acumulam coincidências do destino que conspiraram em seu favor. Gates e Joy, por acaso, estavam próximos aos centros de pesquisas onde as maiores revoluções da informática ocorreram.

Suas vidas acadêmicas se misturaram com os laboratórios e empresas que forjaram a computação eletrônica moderna. Suas famílias tiveram condições e interesse em apoiá-los. A dedicação pessoal de cada um alimentava suas motivações individuais.

E na época exata em que essas grandes transformações ocorreram, eles eram jovens cheios de energia. Em 1975, quando foi lançado o primeiro minicomputador com preço acessível, eles estavam na casa dos vinte anos. Eles e toda a turma do barulho que sacudiu o Vale do Silício, como Paul Allen, Steve Ballmer, Steve Jobs e Eric Schmidt.

Seria coincidência que uma mesma geração estivesse reunida para contar uma história de sucesso da economia? Até poderia ser – se isso já não tivesse ocorrido um século antes.

Numa lista com as 75 pessoas mais ricas de todos os tempos, incluindo desde reis persas e faraós egípcios (com suas riquezas atualizadas a valores presentes, em dólar) até mega-especuladores e magnatas do petróleo, nada menos do que 14 delas nasceram nos Estados Unidos, num intervalo de apenas nove anos1. Foi a época em que a economia viveu as maiores transformações da história, com o surgimento nas primeiras ferrovias e o nascimento de Wall Street.

A diferença dessa geração para a dos bits e bytes? Foi a única capaz de se construir a partir da adversidade, sem um background minimamente favorável, segundo o sociólogo C. Wright Mills. Tempos áureos da land of the free and home of the brave.

Esse é o ponto onde, de acordo com Gladwell, os resultados são atingidos através de talento e preparação. Onde o trabalho duro lapida os dons inatos que construirão as pessoas de grande valor. Não só pela habilidade ou oportunidade que possibilitam que alguém esteja num grupo de elite, mas também pela sua dedicação e esforço em merecer estar ali.

Talvez o Zico tenha sido o melhor cobrador de faltas do mundo. Porque todo santo dia após o treino, chovesse ou fizesse sol, ele ficava em campo treinando, quando seus companheiros já tinham ido embora. Pendurava uma camisa na trave e ficava chutando sobre uma barreira de bonecos. Sozinho. Cem, duzentas cobranças. Quando terminava, o Nunes já estava em casa há muito tempo. Ayrton Senna não nasceu pilotando bem na chuva – ele ia para o autódromo sempre que começava a chover. Dez mil horas.

Porque prática não é aquilo que você faz quando você é bom. É o que faz com que você se torne bom.

Então quer dizer que seu eu for um pouquinho esperto e ralar bastante serei o próximo Warren Buffett ou von Neumann, conforme a natureza da minha ambição? Não necessariamente. Há vários doutores subempregados, gênios desempregados e uma infinidade de pessoas extremamente capazes, mas que não desenvolvem todo o seu potencial.

Nenhuma metodologia existente até hoje conseguiu medir, por exemplo, o QI de Christopher Langan, simplesmente porque ele vai muito além dos atuais padrões. Considerando o QI do Einstein como 150, Langan teria algo em torno de 185. Como então Einstein é uma das maiores personalidades do século XX e você nunca ouviu falar de Chris Langan? Provavelmente isso tem a ver com o fato de Langan ter trabalhado como pedreiro e porteiro a maior parte da sua vida, em vez de escrito a Teoria da Relatividade.

Segundo teorias recentes, um altíssimo QI não é muito diferente de um QI apenas alto, assim como um jogador de basquete altíssimo não será melhor do que Michael Jordan apenas por ter maior estatura. A partir de um nível mínimo2, o que passa a contar são outras habilidades. Mas que habilidades são essas e de onde elas vêm?

Logo após a Primeira Guerra Mundial, o psicólogo americano Lewis Terman iniciou um dos maiores estudos sobre a inteligência humanidade que se tem notícia. No início da década de 1920 ele garimpou as escolas da Califórnia avaliando mais de 250.000 crianças, buscando aquelas que se destacavam nos testes de inteligência. As melhores 1.470 foram selecionadas, formando um exclusivíssimo grupo onde a média de QI era superior a 135 e chegava, em alguns casos, a 200. O grupo foi logo apelidado de Termites.

A partir de então, Terman passou a acompanhar de perto os detalhes das vidas de cada um de seus prodígios, desde suas realizações acadêmicas até relacionamentos e casamentos, passando por doenças, sanidade mental até empregos e promoções. Tudo era registrado em grossos volumes intitulados Estudo Genético dos Gênios.

Pois foi exatamente esse rigor metodológico que permitiu que Terman percebesse o erro que havia cometido, ao atribuir o sucesso das pessoas exclusivamente aos seus Quocientes de Inteligência. Ao atingir a vida adulta, alguns dos Termites tinham empregos públicos, dois eram juízes de cortes superiores e um era juiz municipal. Poucos eram figuras de renome nacional. Recebiam bons salários, mas não tão bons assim. Alguns tinham subempregos. Outros viviam do seguro-desemprego.

Nenhum deles ganhou um prêmio Nobel, mas dois dos que foram excluídos do grupo nos testes preliminares por não terem QIs tão altos ganharam: William Shockley e Luis Alvarez. De maneira melancólica, mas bastante auto-crítica, Termite concluiu que muita inteligência e grandes realizações não andam, necessariamente, de mãos dadas. O que não fechava na equação de Terman? O que faltava para provar a superioridade daquele 0,6% de crianças super-dotadas?

A diferença está, para Gladwell, noutras habilidades tão essenciais ao sucesso de uma pessoa quanto seu QI: sua inteligência prática. Para o psicólogo Robert Sternberg, que cunhou o termo3, isso nada mais é do que conseguir aproveitar o vastíssimo arsenal teórico que se tem, em atividades diárias mais básicas, sejam elas de trabalho, esporte, lazer ou ócio. Do contrário, você tem um garfo numa terra onde se toma sopa. Como Chris Langan.

O QI avalia, até certo ponto, habilidades inatas (estima-se que a genética seja determinante de 50% dele). Mas perspicácia social é conhecimento. Trata-se de um conjunto de habilidades que devem ser aprendidas. Devem vir de algum lugar. E esse lugar, onde absorvemos esses tipos de atitudes e competências é o que costumamos chamar de lar. É a nossa herança comportamental – e o que faz toda a diferença ao avaliar as chances de conseguirmos desenvolver todo o nosso potencial.

A professora de sociologia da Universidade de Maryland Annette Lareau lançou mais luz ainda sobre a origem dessas habilidades. Interagindo direta e constantemente com várias famílias, Lareau concluiu que crianças com mais perspicácia social vêm de lares com melhores condições sociais. Segundo ela, pais mais ricos tendem a criar seus filhos para serem mais independentes, críticos e (respeitosamente) questionadores. Já as famílias humildes parecem imbuir seus filhos de um espírito mais conformado e submisso.

Isso se encaixa na teoria de Gladwell pois, segundo ele, nascer numa família com boas condições (não necessariamente rica) e ser criado num ambiente intelectual e socialmente estimulante é condição sine qua non para ter uma personalidade mais altiva, assertiva, indomável – características inerentes aos fora-de-série.

Enquanto os pais de Bill Gates mostraram-lhe os recursos para buscar o que queria, Chris Langan cresceu num lar com três irmãos de quatro pais diferentes, sendo que o único que permaneceu em casa era o alcoólatra que espancava a todos (ele tem, hoje, uma compleição física robusta porque praticou halterofilismo quando adolescente, exatamente para poder defender-se) . Eles e seus irmãos ficavam nus dentro de casa enquanto a única roupa de cada um secava no varal.

Por fim, Gladwell destrincha o impacto das raízes culturais mostrando como o país de origem da tripulação de uma aeronave interfere no risco de ela sofrer um acidente aéreo. Seu argumento apóia-se no fato de que determinadas culturas alimentam um respeito excessivo por cadeias de comando e que, por isso, o comandante do avião jamais seria questionado por seus subordinados, mesmo que estivesse fazendo a cagada da década.

A relevância disso, no contexto de um fora-de-série, diz respeito à medida em que uma cultura favorece a exposição de novas idéias, quando do questionamento das antigas. Ou de que forma a autoridade aniquila a inovação – não por censurá-la, mas por inibi-la, intimidá-la.

Outro traço cultural interessante diz respeito ao idioma. O chinês, por exemplo, tem uma peculiar estrutura para representar os números – o que facilita muito sua compreensão, memorização e operacionalização (cálculos). O que explicaria, em parte, a facilidade que os orientais têm para a matemática e suas aplicações.

O contexto cultural influi, ainda, em outros traços do caráter da pessoa. A principal atividade econômica da região, bem como sua posição e relevância na divisão do trabalho determinarão algumas características profissionais básicas, como por exemplo a disposição, disciplina e tenacidade para o trabalho (“If a man works hard, the land will not be lazy”); sua relação particular entre esforço e recompensa; e sua aptidão para atividades criativas e desafiadoras ou repetitivas funções braçais.

Ele argumenta, ainda, que uma maior profusão de oportunidades para todos produziria mais gênios em série. Trata-se de uma afirmação da qual sou forçado a discordar. Três ligas amadoras de hóquei certamente daria oportunidades para vários jovens, sem descartar os que nasceram, acidentalmente, fora da data de corte. Haveria, assim, mais jogadores de alto nível, não resta dúvida. Mas aí o nível mudaria. Com tantos jogadores excelentes, a barra subiria e o entry level seria bem mais puxado.

O mundo não teria espaço para o dobro ou o triplo de super-astros do basquete, hóquei ou computação. Também não haveria quinze Microsofts ou vinte Apples. Porque somente umas poucas podem se destacar, independentemente do quão exigente sejam os padrões. Se todos se destacam, não há destaque. O mundo é que seria outro, com parâmetros muito diferentes dos atuais. Só que essa seria a nossa realidade. Estaríamos habituados a esse novo patamar de exigência, acostumados a performances que hoje nos pareceriam assombrosas – como numa viagem no tempo.

Gladwell conclui, então, que é preciso que uma conjunção de fatores quase cósmicos ocorra para que aquela estrela brilhe exatamente na sua vez. É o atleta que nasceu em 1° de janeiro, o geek cujo colégio tinha o único terminal de computador do Estado ou o advogado que não trabalhou nas grandes empresas porque era judeu e ficou no limbo por décadas para depois dominar o mercado de fusões e aquisições. Mas porque eles estavam prontos, puderam aproveitar as oportunidades (the right man, in the right place).

Os grandes fora-de-série parecem enquadrar-se, à primeira vista, numa ponto fora de qualquer curva de médias ou tendências. O que não é verdade. Eles são produtos da história da sua própria comunidade, da oportunidade e de um legado recebido. Estão sustentados por uma rede de vantagens e heranças, algumas merecidas, outras não, umas ganhas com trabalho árduo, outras por pura sorte – mas todas críticas para fazer deles o que realmente são.

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1. John D. Rockefeller, 1839; Andrew Carnegie, 1835; Frederick Weyerhäeuser, 1834; Jay Gould, 1836; Marshall Field, 1834; George F. Baker, 1840; Hetty Green (a única mulher!), 1834; James G. Fair, 1831; Henry H. Rogers, 1840; J. P. Morgan, 1837; Oliver H. Payne, 1839; George Pullman, 1831; Peter Arrell Brown Widener, 1834;Philip Danforth Armour, 1832.

2. Essa foi uma teoria desenvolvida na década de 1980 por Arthur Jensen em seu livro Bias in Mental Testing.

3. Sternberg introduziu, também, o conceito da Teoria da Tripla Inteligência, no qual nossas atividades mentais seriam produzidas pelo conjunto de uma inteligência Analítica (a mais tradicional e que considera as habilidades de raciocínio abstrato, matemático e lógico), uma Criativa (o pensamento divergente e intuitivo, que nos ajuda a lidar com situações novas), e a já citada Prática (ou contextual, que possibilita nos adaptarmos a novos ambientes e lidar com as nossas emoções e as dos outros).