BlunderPor mais que a gente queira, se prepare ou se esforce para tomar boas decisões, volta e meia damos umas escorregadas e o resultado acaba sendo mais ou menos desastroso. Uma boa forma de evitar tais percalços é conhecer melhor nossos processos cognitivos, como raciocinamos e de que forma concatenamos algumas ideias.

Entender melhor o funcionamento da mente permite-nos ver como ela funciona e, especialmente, quando ela não funciona direito. Explorar tais falhas de julgamento é o propósito de Zachary Shore em seu oportuno Blunder: Why Smart People Make Bad Decisions (Bloomsburry, 2008).

Um dos tópicos mais interessantes fala sobre Exposure Anxiety – ou Ansiedade por Exposição – em que a pessoa sente-se intimidada ao ser colocada em destaque. Nesses casos, por medo de revelar alguma fraqueza, o indivíduo opta por uma excessiva e inequívoca demonstração de força. Os exemplos são altamente ilustrativos:

Durante a Guerra do Peloponeso, Athenas era uma fortíssima Cidade-Estado sempre envolvida em conflitos com Esparta. Numa destas disputas, em 427 a.C., os atenienses sufocaram uma rebelião na cidade de Mytilenean e, logo em seguida, enviaram soldados àquela região com uma sinistra missão: exterminar todos os homens e escravizar mulheres e crianças.

Os que defendiam esta posição argumentavam que era necessária uma prova de força para prevenir futuros levantes semelhantes ao recém-ocorrido. Perdoar a insurreição seria um incontestável sinal de fraqueza e, assim, a punição deveria ser a mais cruel possível.

Diodoto argumentou, no entanto, que em vez de prevenir outras rebeliões, exterminar os rebeldes mandaria um recado distinto: um guerreiro derrotado morrerá na batalha ou depois dela mas, de qualquer forma, morrerá. E as duas consequências deste raciocínio são prejudiciais: de um lado os rebeldes haverão de se preparar melhor no caso de efetivamente partirem para o conflito e, de outro, sabendo que se perderem a guerra serão exterminados, vão lutar com o ímpeto do desespero. Sem a opção da rendição, a luta seria feroz.

Raciocínio semelhante foi aplicado mais de dois mil anos depois, no julgamento dos militares americanos que cometeram os indescritíveis abusos na prisão iraquiana de Abu Ghraib. Segundo a promotoria, os cruéis atos praticados contra os prisioneiros de guerra deixaria claro que cair prisioneiro – mesmo em tempos de Convenção de Genebra – não era uma boa alternativa e seria preferível, portanto, lutar até a morte.

Como apontou o psicólogo americano Phil Zimbardo, arrolado como testemunha de defesa, os americanos operavam uma prisão desumana para os prisioneiros e para os próprios guardas, não só em termos de conforto e higiene mas também no que tange às condições psicológicas. Os abusos físicos seriam, por assim dizer, uma (injustificável) demonstração de força numa condição desfavorável.

Mesmo considerando a grande distância entre os dois acontecimentos e a finalidade de cada um, a linha de raciocínio é a mesma: ambos buscam demonstrar força para que as fraquezas não fiquem evidentes. Fica claro, ainda assim, que em ambas as situações o erro na aplicação do castigo acaba por torná-lo excessivamente cruel resultando, portanto, num desfecho diferente do planejado.

Pelo medo de se expôr – e viver o embaraço de ser percebido como fraco ou suave demais – o indivíduo busca defender sua credibilidade apelando para a construção de uma imagem de indestrutível, à prova de falhas. Essa imagem é construída, muitas vezes, através de atos de força desproporcional ou até mesmo desnecessária.

Por isso, antes de tomarmos atitudes drásticas demais, é preciso avaliar a que imagens estamos nos associando e se isto é realmente necessário. Mesmo que nossa intenção seja diferente, precisamos lembrar que, em casos assim, as percepções contam mais do que a própria realidade.