Para responder à pergunta do título, recorro a um dos mais célebres estudos de Daniel Kahneman e Amos Tversky, os precursores da Economia Comportamental:

“Linda tem 31 anos, é solteira, comunicativa e brilhante. Formou-se em filosofia. Como estudante, era profundamente preocupada com as questões da discriminação e da justiça social e também participou em manifestações anti-nucleares.”

Depois disso, as oito proposições, as quais os participantes do estudo deveriam colocar em ordem, de acordo com o que achassem mais provável de ser verdadeiro em relação a Linda:

AA035966Linda é professora na escola primária;

Linda trabalha numa livraria e faz aula de Yoga;

Linda é ativa no movimento feminista (F);

Linda faz trabalho social em psiquiatria;

Linda é membro da Liga das Eleitoras;

Linda é caixa num banco (C);

Linda é vendedora de seguros; ou

Linda é caixa num banco e ativa no movimento feminista (F&C).

É fácil perceber que o perfil é construído para sugerir, subliminarmente, que Linda é uma feminista(F), mas que não é provável que seja caixa de banco (C). Agora, antes de prosseguir, pare e pense por um momento: é mais provável que ela seja caixa de banco (C) ou que seja caixa de banco e feminista (C&F)?

Esse tipo de dedução caracteriza exatamente o objeto de estudo: a heurística, ou os atalhos que nosso cérebro toma para resolver questões em condições de incerteza. Como a mente humana funciona quando há uma quantidade limitada de informações e precisamos tomar decisões? Como podemos concluir sobre a ocupação de Linda com umas poucas frases? E essas conclusões? Estariam elas corretas?

Um dos preceitos da probabilidade diz que a chance de um evento ocorrer obedecendo a duas condições é menor do que obedecendo a apenas uma. Por exemplo, num baralho de 52 cartas é mais provável tirar uma carta vermelha (são 26 chances em 52) ou uma carta par (24 chances se considerarmos a Dama como número par) do que tirar uma carta vermelha e par (12 chances em 52). Quando nos perguntam se é mais provável tirarmos uma carta vermelha ou uma carta vermelha e par, certamente a primeira opção é mais razoável, correto?

Assim, é mais provável que respondam que Linda é feminista (F) do que feminista e caixa de banco (F&C). Nesse caso, foi o que o estudo comprovou, sem surpresas.

Mas a opção menos provável – que de acordo com o perfil de Linda é ser caixa de banco (C) – aparece mais votada quando é associada a ser feminista (F). Resultou, para surpresa dos pesquisadores, que feminista e caixa de banco (F&C) foi mais votado do que simplesmente caixa de banco (C), configurando um contrassenso conforme o exemplo das cartas demonstrou.

Pode-se imaginar que um conhecimento básico de estatística e probabilidade seria suficiente para eliminar esse fenômeno, batizado de falácia da conjunção . Mas Kahneman e Tversky controlaram essa variável convidando três grupos distintos de voluntários: leigos, estudantes de graduação e estudantes de doutorado. Os resultados não mostraram, entretanto, qualquer variação estatisticamente significativa em relação à escolaridade. Ou seja, independentemente do nível de instrução as pessoas cometem os mesmos erros em probabilidade.

Um subgrupo desse estudo pedia aos participantes que escolhessem apenas entre duas alternativas:caixa de banco (C) e feminista & caixa de banco (F&C). Uma esmagadora maioria de 85% optou pela segunda hipótese que contraria, flagrantemente, os princípios da probabilidade.

Uma variação sobre o mesmo tema foi realizado na Universidade de Columbia, onde os estudantes recebiam um texto de 2.000 palavras e metade do grupo deveria estimar a quantidade de palavras terminadas em “…_ _ing”(normalmente, no inglês, são verbos no gerúndio); enquanto que a outra metade precisava avaliar quantas palavras tinham a letra “n” na penúltima posição (“…_ _n_”).

Para quem está vendo os dois casos é fácil notar que todas as palavras do primeiro caso encaixam-se também no segundo – pois todas as palavras terminadas em “…_ _ing” têm a letra “n” na penúltima posição (working; working). O estudo apontou, no entanto, as seguintes médias: 13,4 palavras para o primeiro e 4,7 para o segundo. Por que isso? Porque é mais fácil lembrar de palavras terminadas em “ing” do que de um “n” perdido na penúltima posição – ainda que sejam a mesma coisa!

O que os autores concluem é que quando uma das hipóteses parece fazer mais sentido, ser mais frequente ou mais representativa, tendemos a escolhê-la porque ela nos agrada mais. E essa rápida opção pela primeira alternativa ofusca nosso raciocínio matemático, relegando avaliações probabilísticas a um segundo plano.

Mlodinow argumenta que “se os detalhes dados encaixam-se em nossa representação mental de algo, quanto mais detalhes tivermos, mais real parecerá o quadro e, portanto, mais provável”. Acrescentar mais dados à estorinha de Linda tem o ilusório efeito de torná-la mais real enquanto que, na verdade, quanto mais opções, mais difícil resulta acontecerem todas ao mesmo tempo. Em A Lógica do Cisne Negro, Nicholas Nassim Taleb chama esse fenômeno de falácia da narrativa pois, segundo ele, tais estorinhas tornam uma situação mais palatável, aceitável, plausível.