Fazer pesquisas é sempre um grande desafio. Muitas vezes a gente espera uma coisa e descobre outra, completamente diferente. E, mais tarde, quando se dá conta, há uma terceira explicação.

FreakonomicsBRUm interessante exemplo disso pode ser visto em Freakonomics: O Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta, de Steven Levitt e Stephen Dubner, especialmente no capítulo O Que Faz Pais Perfeitos? (ou algo que o valha, porque a minha versão diz What makes a perfect parent). Nele, os autores questionam sobre os fatores necessários para inferir que tipos de condições compõem um lar onde as crianças terão um desenvolvimento intelectual melhor.

Levitt e Dubner analisaram um projeto do Departamento de Educação dos Estados Unidos, o Estudo Longitudinal da Infância (Early Childhood Longitudinal Study), no qual mais de 20.000 crianças foram acompanhadas na década de 1990, desde o Jardim de Infância até a 5a série.

Todos os dados típicos foram colhidos, como raça, sexo, estrutura familiar, status sócio-econômico, nível educacional dos pais etc. Além disso, foram conduzidas entrevistas pessoais com os pais, buscando informações mais íntimas, como por exemplo se os pais batem nos filhos, se os levam a bibliotecas e museus e quanto tempo por dia assistem televisão.

Vários fatores foram analisados e comparados com a capacidade intelectual das crianças em busca de correlações conclusivas. Algumas são esperadas, outras nem tanto:

.: Pais com alto nível de escolaridade tendem a ter filhos mais inteligentes não só pelo ambiente familiar mais propício, mas também por transmitir parte disso geneticamente.

.: Uma criança com baixo peso ao nascer tem mais chances de um desenvolvimento intelectual pior, parte pelas naturais debilidades físicas que um parto prematuro pode trazer, parte porque um parto prematuro pode indicar falta de cuidados pré-natais adequados.

E agora o que eu considero mais curioso:

.: Crianças que apanham dos pais não têm seu desenvolvimento escolar prejudicado. Pela natural associação que se faz entre uma pessoa que bate no filho e um nível cultural inferior (ao menos nos EUA), esperava-se que as crianças tivessem desempenho escolar pior – o que não se verificou.

Neste momento é comum as pessoas buscarem explicações na lógica convencional, como por exemplo o caráter pedagógico da palmada ou os benefícios de se aprender disciplina desde cedo. O que os pesquisadores revelam, no entanto, vai muito além do que ensina o nosso bom senso.

Deve-se analisar, em primeiro lugar, a forma como a pesquisa era feita. Em vez de responder um questionário anônimo, no qual seu comportamento era diluído entre milhares de outros, os participantes passavam por entrevistas individuais e pessoais e, por isso, precisavam admitir a pelo menos uma pessoa – por mais que fosse um estranho – que bate no seu filho.

É preciso muita honestidade para isso – e esse é exatamente o ponto! A criança não apanha mais do que as outras, necessariamente. A diferença principal é que ela tem um pai que diz a verdade, por pior que ela seja. E honestidade parece ser mais importante para ser um bom pai do que bater no filho para ser um mau pai.

A lição que se tira disso é que se deve tomar cuidado com a forma como obtemos as respostas. Porque perguntas inadequadas, muitas vezes, constrangem os pesquisados e interferem diretamente na qualidade dos resultados.

E a dica que fica é: ao perguntar algo a outra pessoa, pergunte-se se ela teria, realmente, a liberdade e a sinceridade necessárias para responder o contrário do que efetivamente respondeu. Se a resposta for não, então você pode não ter recebido uma resposta honesta.