No texto anterior descrevi o que seria um truelo entre adversários com diferentes habilidades e de que forma pode-se raciocinar para chegar a um desfecho mais favorável. Naquele exemplo, a forma como a situação estava desenhada influenciava diretamente no seu resultado. Resulta, portanto, que muitas vezes as regras do jogo determinam o vencedor, muito mais do que as habilidades intrínsecas de cada participante ou as preferências de quem precisa escolher um favorito.

Dixit e Nalebeuff ilustram essa ideia de maneira muito didática em The Art of Strategy, recorrendo a um caso real ocorrido com Plínio, o Jovem, quando este era um senador romano durante o governo de Trajano, no ano 100 d.C.:

Grosso modo, existem três formas básicas de se julgar um crime num tribunal de justiça, cada um com seus prós e contras:

1. Status Quo: primeiro determina-se a culpa ou inocência do acusado. Caso seja culpado, determina-se, então, a pena mais apropriada;

2. Tradição Romana: após a apreciação do caso, decide-se se a punição mais severa (pena de morte) é aplicável. Caso contrário, desce-se um degrau na severidade da pena, até escolher uma adequada – ou absolve-se o réu;

3. Sentença Mandatória: escolhe-se primeiro a pena adequada ao crime e, depois, se o réu deve ser submetido a ela.

No caso citado acima, um homem preso e acusado de um crime terá o seu destino decidido por três juízes que enxergam o caso de maneiras muito distintas umas das outras, de acordo com as ordens de preferência a seguir:

O Juiz A entende que o réu é culpado e deve receber a pena máxima pelo crime, ou seja, pena de morte. Caso isso não seja possível, deverá ficar preso pelo resto da vida. E, por fim, o pior desfecho seria, para este juiz, que o acusado fosse solto;

O Juiz B também acredita que o réu é culpado, mas como ele é contra a pena de morte prefere, assim, a prisão perpétua como primeira opção. Mantendo a coerência, ele estaria disposto a libertar o acusado antes de vê-lo executado;

Já o Juiz C é o único a confiar na inocência do acusado e, por isso, defenderá a sua absolvição e consequente soltura. Por outro lado, ele prefere vê-lo morto de uma vez a passar o resto da vida na cadeia.

Será que, dadas as preferências acima, poderíamos ter resultados diferentes dependendo do sistema adotado? Vejamos:

Três sentenças1. Status Quo (primeiro a culpa, depois a pena): os juízes percebem que se o réu for declarado culpado, a pena de morte ganhará de 2×1 (A e C vs. B), mas como dois deles preferem o acusado livre a executado, então ele é declarado Inocente;

2. Tradição Romana: (severidade decrescente): os magistrados entendem que se a pena de morte não for escolhida no primeiro estágio, a prisão perpétua será no segundo. E como o Juiz C prefere o réu executado a apodrecendo na cadeia, por 2×1 (A e C vs. B) escolhe-se a Pena de Morte;

3. Sentença Mandatória: (primeiro a pena, depois a culpa): se a pena escolhida for prisão perpétua, então o réu será declarado culpado – como preferem os juízes A e B. Mas se decidirem pela pena de morte, então o acusado será solto, pois os Juízes B e C assim preferem. A decisão resume-se, então, à prisão perpétua ou liberdade e, por 2×1 (A e B vs. C) ganha a Prisão Perpétua.

É curioso notar como o sistema pode influenciar diretamente no resultado. O mesmo caso teve três desfechos completamente diferentes.

Claro que nem todos os exemplos são tão dramáticos quanto o enfrentado por Plínio, o Jovem, lidando com questões entre a vida e a morte. Mas pense, por exemplo, nos sistemas eleitorais que temos por aí. Quantas eleições teriam resultados diferentes se fosse apenas um turno (lembre-se que muita gente deixa de votar em seu candidato para favorecer outro em melhor posição nas pesquisas)? E quantos campeonatos brasileiros o Cruzeiro teria ganho se o sistema de pontos corridos fosse utilizado há mais tempo? E quantos o São Paulo teria perdido?

Independentemente das respostas, o que Dixit e Nalebeuff sugerem é que de acordo com as regras do jogo, os participantes adaptam suas estratégias. Quando as regras mudam, os jogadores alteram seus comportamentos e, de certa forma, anulam as mudanças nas regras.

Precisamos, portanto, tomar muito cuidado antes de definirmos nossas próprias regras, as da nossa casa ou nosso ambiente profissional ou, ainda, ao escolher quem vai fazê-las. A forma como os inputs serão processados, considerados, pesados e somados pode transformar radicalmente o resultado final.