Você ficou perplexo ao saber que a cada 36 meses metade do seu conhecimento se deteriora. Intrigou-se ao perceber que todo o seu investimento em conhecimento técnico corre riscos. Surpreendeu-se ao descobrir que brainstorming é uma técnica ruim e defasada. Mas, honestamente, a constatação mais radical vem agora: nada mais perigoso para uma empresa do que um bom clima.

Nos cursos sobre Negociação, uma das maiores aflições dos participantes é sobre as dificuldades em se negociar com amigos. De fato, as pesquisas mostram que pessoas conhecidas tendem a buscar logo um acordo e, para isso, evitam os conflitos. Como consequência elas frequentemente deixam as melhores oportunidades passarem.

Em seu recente Six Simple Rules: How to Manage Complexity without Getting Complicated (Harvard Business Review Press, 2014), Yves Morieux e Peter Tollman vão mais além. Para os autores, quando duas pessoas convergem muito rápido, a cooperação sofre e a geração de valor é prejudicada – sejam entre colegas, amigos ou cônjuges.

Rafting_bPense no casal que, para não ter que brigar sobre que canal assistir, compra outra TV e cada um sintoniza o que quer. O custo aumenta, a cooperação inexiste, a relação perde. Nas empresas acontece o mesmo e quem paga a conta desta preguiça é o cliente – ou o cidadão, no caso de órgão público.

Além disso, pesquisas sobre inovação sugerem que, na maioria das vezes, ela surge do conflito entre ideias, de acaloradas discussões – e não de educadas e estéreis sessões de brainstorming, onde não se pode criticar nem discordar.

Muitas empresas se esforçam, ainda, em criar e manter um clima de cordialidade em suas dependências, mesmo que artificial. O resultado disso são problemas escondidos, atritos abafados e soluções adiadas.

Em cenários assim surge aquela figura gente boa e amiga de todo mundo. Agradável e simpática, não serve para muito mais coisas do que concordar com tudo e com todos. Mas você é capaz de se lembrar de alguma contribuição relevante que este bacana tenha feito? Uma opinião valiosa durante uma reunião? Uma ideia diferente durante uma pausa para o café? Nada, não é mesmo?

Pois é um enorme contingente de pessoas cuja única habilidade parece ser relacionar-se bem e simplesmente sumir nos momentos críticos. São mentes áridas dentro de corpos que praticam a indisfarçada camuflagem corporativa, escondendo-se das decisões, esquivando-se das responsabilidades.

O ideal – como em quase tudo na vida – é que exista equilíbrio nas Competências Interpessoais. Que as ideias, boas ou não, resistam à tirania da harmonia e sobrevivam à ditadura do bom clima organizacional. Afinal, como dizia um chefe que tive: “Eu não vim aqui para fazer amigos. Amigos eu já tenho muitos.” Curiosamente, uma das pessoas mais amáveis que já conheci e com uma enorme capacidade para criar um ambiente agradável e desafiador ao mesmo tempo.

Porque se não houver desafio, o resto não vale a pena.