Encontrei uma discussão bastante interessante no site da NPR (National Public Radio) sobre uma inovação no futebol americano. Acontece que, nesse esporte, apenas alguns jogadores selecionados podem receber os lançamentos do quarterback, algo como o armador do jogo. Mal-comparando com o nosso futebol (o soccer deles), seria algo tão surreal como permitir que somente os centroavantes pudessem fazer gols. A regra que restringe isso estabelece que cinco atacantes são elegíveis a receber o passe e devem usar uma numeração específica (1 a 49 e 80 a 99).

Pois eis que, não menos que de repente, Kurt Bryan, técnico de um desconhecido time universitário encontrou uma brecha na regra e decidiu partir para cima com tudo. Como não há na regra daquela liga uma proibição explícita, ele colocou todos os seus jogadores com números de atacantes e organizou-os de acordo. Isso significa dizer que, em vez dos três ou quatro tradicionais, o time poderia contar com onze avantes.

Com o recém-batizado esquema A-11, a limitada equipe do Piedmont High começou a deixar adversários considerados mais fortes completamente atônitos durante as partidas. Em vez de se amontoarem numa determinada parte do campo, seus jogadores espalhavam-se confundindo os marcadores, deixando-os perdidos. Os times rivais não sabiam de onde a bola vinha em mais da metade das jogadas, conforme confessaram mais tarde e, normalmente, levavam um período inteiro para descobrir o que estava acontecendo.

Da ideia original aos seus primeiros sucessos, Bryan precisou consultar alguns experts em regras do jogo (a tática é proibida na liga profissional e permitida em 40 Estados nas competições amadoras) e seu time levou algumas surras antes de encontrar o equilíbrio ideal: o A-11 é usado em 80-90% do jogo – o que confunde ainda mais o adversário.

O que antes era uma dúvida – já que Bryan não sabia se seria um tremendo sucesso ou um retumbante fracasso – transformou-se na sensação da temporada de 2007. E também acendeu uma acalorada polêmica, pois muitos puristas do esporte ainda estão torcendo os seus narizes.

Seleção Holandesa

A Laranja Mecânica

Há três décadas o mundo todo assistiu deslumbrado ao futebol total jogado pela seleção holandesa na Copa do Mundo da Alemanha (1974). No time dirigido por Rinus Michels e comandado em campo por Johann Cruyff, os jogadores eram atletas solidários que trocavam de posição em campo conforme exigia a situação, girando em torno do que ficou conhecido como Laranja Mecânica, pela cor de seu uniforme e a precisão dos passes. Apesar de perderem a final para os anfitriões, os holandeses iniciaram uma nova era no esporte bretão.

Nas recentes Olimpíadas de Pequim assistimos à pulverização de diversos recordes devido a evoluções tecnológicas – calçados mais leves nas pistas e maiôs com menor resistência em piscina pouco turbulentas -, além do predomínio de equipes que contaram com modernos equipamentos em suas preparações. Fora alguns assombros físicos individuais, como Usain Bolt, as melhoras nos esportes têm sido incrementais.

Dick Fosbury

Dick Fosbury

Um bom exemplo de inovação radical nos esportes foi dado por Dick Fosbury, o primeiro atleta a entrar meio de lado, meio de costas no salto em altura. Antes da sua revolucionária pirueta, saltava-se o sarrafo de frente. No início da década de 1960, numa competição estudantil em Medford, Oregon, o jovem Fosbury apresentou sua desengonçada técnica.

Embora seus treinadores tentassem dissuadi-lo de sua ideia, ele seguiu adiante para, diante de 80.000 espectadores, ganhar a medalha de ouro e bater o recorde olímpico nas Olimpíadas do México, em 1968. Quatro anos depois, 28 dos 40 saltadores em Munique copiavam sua técnica.

Regras como a do futebol americano limitam as possibilidades táticas dos times e reduzem as combinações de ataque e defesa. Uma inovação que revoluciona um esporte assemelha-se com sua reinvenção, seu recomeço. Saltar o sarrafo de costas é praticamente uma nova modalidade. Dois quarterbacks (ah é, esqueci de contar esse detalhe sobre o A-11) lançando para nove atacantes pode ter diversos finais. O lateral-direito tabelar com o ponta-esquerda desmonta qualquer retranca. E é aí que está a beleza do esporte, em que o mais forte ganha do mais fraco e o mais esperto ganha do mais forte.

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*Blitzkrieg é um termo alemão que significa “guerra-relâmpago”. Cunhado na década de 1930, foi executado com sucesso durante a Segunda Guerra Mundial, observando seus três princípios básicos: surpresa, rapidezbrutalidade. Atingiam seus objetivos devido, principalmente, à sua velocidade e à confusão que se instalava nas linhas inimigas.