FOTO: Lola Studio

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Recebi, dia desses, um comentário muito interessante em uma entrevista que publiquei recentemente… A certa altura Dan Ariely – autor de Previsivelmente Irracional e outros best sellers – disse que não fazia consultoria porque receber dinheiro de uma empresa compromete a sua integridade profissional.

Uma leitora perguntou se eu concordava com a afirmação e se não haveria um limite de valores para manter-se isento.

Pois a essência da resistência de Dan Ariely é exatamente esta: não há como saber.

O que a Economia Comportamental tem mostrado, repetidamente, é que nós não somos tão racionais como pensamos (ou pensávamos) ser. Nosso comportamento sofre muita influência de fatores que sequer enxergamos. Em situações assim, o ideal é que tais fatores sejam terminante e definitivamente deixados de lado.

Quando um autor ou palestrante expõe seus conflitos de interesse*, apontando de quais empresas já recebeu dinheiro, ele está deixando claro que o que ele escreve ou diz pode estar sofrendo influência dos seus patrocinadores. E, assim como você deve dar os devidos descontos nestas situações, deve dar um desconto ainda maior àqueles que não declaram antecipadamente seus conflitos de interesses.

Há, ainda, os que defendem que a honestidade intelectual não admite graduações. É mais preto no branco e não permite, assim, variações de cinza. Ou você é menos honesto se receber um fee de R$ 50 mil do que um de R$ 10 mil?

O que Ariely faz é, simplesmente, tirar esta possibilidade da frente. Ao recusar patrocínios – que é como ele enxerga as consultorias – ele evita qualquer tipo de viés favorável ao seu benfeitor.

Pode até parecer um pouco de radicalismo da parte de Ariely, mas como um dos mais influentes pensadores da Economia Comportamental, ele tem plena consciência de que nossas decisões têm um forte componente irracional. Ele sabe que seus valores são o seu maior ativo. E que não há valor que pague isso.

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*Se você estiver ouvindo falar desta declaração de conflitos de interesses pela primeira vez, então tente se lembrar quantas vezes algum palestrante pareceu-se mais como um porta-voz de uma determinada companhia do que um profissional isento.