Faltavam poucos minutos para terminar o meu prazo. Em breve eu teria que me deparar com a dura realidade de ter falhado. Possivelmente o único dentre os meus colegas. Durante todo o dia a ansiedade por aquele momento prejudicou minha concentração e meu rendimento.

Mas quando eu disse à professora que havia esquecido o meu diário, ela simplesmente pediu que eu o trouxesse no dia seguinte – e nada de mais grave aconteceu.

Pela primeira vez entendi que, às vezes, nosso medo é desproporcional às consequências que suas origens podem causar. Quaisquer que sejam elas. Eu tinha, então, seis anos, mas jamais me esqueci da sensação de alívio em perceber que minha angústia fora exagerada.

Embora eu não tenha tomado nenhuma decisão precipitada naquele dia – ou pelo menos é assim que me lembro – parte do meu comportamento foi influenciado pela sensação de que algo ruim me aconteceria. Porque assim como outros traços do nosso temperamento, o medo interfere em nossa maneira de ver o mundo e, em última instância, em todas as nossas decisões.

Para nossos antepassados, supervalorizar o medo pode ter desempenhado um papel crucial na sobrevivência da espécie. Na dúvida se um ruído ou uma sombra era um tigre dente de sabre ou um coelho, o animal que foge sobrevive mais do que o curioso ou o indiferente. Mas ele também come menos coelhos.

Esta reação aparentemente desproporcional frente às possíveis fontes geradoras de perigo originou, também, um importante conceito da Economia Comportamental, conhecido como Aversão à Perda. Desenvolvida por Amos Tversky e Daniel Kahneman, a ideia central sugere que somos muito mais sensíveis a perdas do que a ganhos.

Como parte da Teoria da Prospecção, que valeu a Kahneman o Nobel de Economia em 2002, a Aversão à Perda explica resultados surpreendentes em experimentos controlados. Quando pesquisadores oferecem a voluntários um jogo de cara ou coroa, no qual eles têm chances iguais de perder $100, ou ganhar $150, a proposta normalmente é recusada.

Habitualmente, o jogo só é aceito quando as chances de perder $100 são contrabalanceadas pela possibilidade de ganhar $200 – sugerindo que, em condições normais, só aceitamos um risco de perder quando temos o dobro de chances de ganhar.

O grande problema desta assimetria é que nem todas as oportunidades de ganho que a vida nos oferece seguem uma divisão de probabilidades tão favorável. Frequentemente preferimos um ganho bem menor associado a um risco igualmente pequeno, em vez de o contrário.

Ao avaliar as principais características de iconoclastas – aquelas pessoas que fazem o que os outros diziam não ser possível – o neurocientista americano Gregory Berns destacou, além da percepção e habilidades sociais diferenciadas, a forma como eles lidam com o medo (O Iconoclasta, Ed. Record, 2009).

Segundo Berns, para levar adiante ideias, projetos e criações totalmente originais é preciso sair da zona de conforto e vencer preconceitos, quebrar barreiras e encarar rejeições de todos os tipos. E é exatamente neste aspecto que o medo pode nos travar, pois temores associados ao fracasso, à ridicularização e à vergonha podem transformar o medo de errar em medo de tentar.

De acordo o psiquiatra Diogo Lara, o medo atua como um inibidor do comportamento, em oposição à raiva, que seria o ativador. Em O modelo de medo e raiva (Revolução de Ideias, 2006), Lara destaca que indivíduos com baixo medo tendem a ser otimistas, extrovertidos, audaciosos e impulsivos. Já aqueles com alto medo podem se revelar tímidos, cuidadosos, dependentes e obedientes.

De modo geral, sensações e comportamentos provocados pelos mecanismos do medo têm finalidades de segurança e preservação. As reações fisiológicas associadas procuram deixar nosso corpo em estado de alerta. As pupilas se dilatam para que enxerguemos melhor, enquanto que respiração e os batimentos cardíacos ficam mais acelerados, para que os músculos recebam mais oxigênio e nutrientes, prontos para reações extremas, como fuga ou luta.

Estas condições, no entanto, não são as ideais para o funcionamento do nosso organismo e, quando ocorrem com muita frequência, ou prolongam-se mais do que o necessário, tornam-se prejudiciais. Se o medo persiste por muito tempo, transforma-se em ansiedade e, em casos extremos, pode evoluir para doenças, como a síndrome do pânico.

Para contornar este problema, buscamos antecipar e evitar os agentes causadores do medo adotando, frequentemente, posturas exageradamente cautelosas. Mas esta sensação ilusória de segurança – já que é impossível prever absolutamente todas as fontes de risco – pode ter efeito exatamente contrário.

Como explica Nassim Taleb em Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos (Best Business, 2014), a falta de agentes externos causadores de estresse atrofia a nossa capacidade de lidar com o imprevisível. Uma boa dose de aleatoriedade no dia a dia, enfrentando pequenos problemas, ajuda-nos a criar anticorpos para o dia em que nos depararmos com grandes problemas – que, definitivamente, virão.

Costuma-se dizer em medicina que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. O medo funciona de modo parecido: em excesso pode levar a pessoa à paralisia; em falta pode acarretar riscos perigosos e desnecessários.

Assim como muitos outros componentes do nosso comportamento, o medo age através de mecanismos pouco conhecidos e, de modo geral, sem que saibamos o que realmente está acontecendo. Algumas vezes, são condições e sensações que fogem ao nosso controle. Ter mais ou menos medo não é, necessariamente, uma questão de personalidade, caráter ou índole. Muitas vezes é mais uma questão de percepção e adaptação e, assim, o simples fato de reconhecermos estas diferenças já ajuda a prevenir erros mais grosseiros de julgamento.

O importante é não ter medo de ter medo. E ter coragem de ter coragem.